Qumran: os manuscritos do Mar Morto e o que eles mudaram na Bíblia
Um documentário de 33 minutos. O vídeo estreia em breve no YouTube; enquanto isso, você já pode ler o resumo, os capítulos e o texto completo.

Na capa, a gruta 4 de Qumran, perto do Mar Morto, em foto de Effi Schweizer.
Em 1947, um pastor beduíno achou rolos numa gruta perto do Mar Morto. Dali saíram as cópias mais antigas que se conhecem dos livros da Bíblia hebraica. Neste documentário: a descoberta e as suas versões, as onze grutas (e a de 2017), as datas, o Grande Rolo de Isaías, quem guardou os rolos, por que a publicação levou décadas e quatro exemplos do que mudou, e não mudou, na Bíblia que você lê. As leituras católica, judaica e protestante aparecem com as próprias fontes, sem que o vídeo decida.
O texto completo do vídeoLer
0:00Abertura
Primeiro de junho de 1954. No jornal Wall Street Journal, um anúncio oferece à venda «os quatro manuscritos do Mar Morto»: manuscritos bíblicos «de pelo menos 200 antes de Cristo».
Um desses rolos é o livro inteiro do profeta Isaías, copiado cerca de mil anos antes dos manuscritos da Bíblia hebraica que se conheciam até então.
Os rolos tinham saído, sete anos antes, de uma gruta no deserto, perto do Mar Morto. Depois dela, vieram outras: mais de 900 textos, em dezenas de milhares de fragmentos.
0:39Uma pedra numa gruta
Voltemos a 1947. A leste de Jerusalém, o terreno despenca cerca de 1.200 metros até o ponto mais baixo da Terra: o Mar Morto. Na margem noroeste, entre penhascos de calcário que se esfarelam, fica um sítio arqueológico chamado Qumran, a uns 35 quilômetros de Jerusalém.
O relato mais conhecido começa com um pastor beduíno da tribo Ta'amireh. Ele procurava um animal que tinha se desgarrado do rebanho. Achou a abertura de uma gruta, jogou uma pedra lá dentro e ouviu barro se quebrando. Dentro da gruta havia jarros. Em alguns, rolos antigos, uns embrulhados em pano de linho.
Esse relato tem versões. O estudioso Lawrence Schiffman, num livro de 1994, dá o nome do pastor, Muhammed edh-Dhib, e situa a cena no inverno de 1947, talvez no outono de 1946. A Autoridade de Antiguidades de Israel conta a mesma cena com uma ressalva: «como diz a história». E a legenda de uma foto antiga, com dois pastores, Jum'a e Muhammed, diz que eles «afirmaram» ter achado os primeiros rolos.
Os pastores e os seus companheiros levaram os rolos a Belém, a um sapateiro que também negociava antiguidades: Khalil Eskander Shahin, o Kando. No fim, eram sete rolos. Quatro foram parar com o arcebispo Samuel, do mosteiro sírio ortodoxo de São Marcos, em Jerusalém, vendidos por quase nada. Os outros três foram oferecidos, por outro negociante, a um professor da Universidade Hebraica de Jerusalém.
O professor era o arqueólogo Eleazar Sukenik. Ele reconheceu a escrita antiga e comprou os três. No diário, anotou: «Minhas mãos tremiam quando comecei a desenrolar um deles.» Contou que a língua lembrava a dos Salmos, mas que aquele texto ele não conhecia. E que teve a sensação de olhar para um rolo hebraico que não era lido havia mais de dois mil anos.
Que rolos eram esses sete? Um livro completo de Isaías e uma segunda cópia do mesmo profeta. A Regra da Comunidade, um livro de normas de um grupo religioso. Um comentário ao profeta Habacuque. O Rolo da Guerra. Um rolo de hinos de ação de graças. E uma releitura, em aramaico, de trechos do Gênesis. Em 1948, o pesquisador John Trever, das Escolas Americanas de Pesquisa Oriental, em Jerusalém, fotografou três dos rolos do arcebispo.
Em 1949, o arcebispo levou os seus quatro rolos para os Estados Unidos. Em 1954, eles apareceram no anúncio do começo deste vídeo. Quem comprou, por meio de um intermediário americano, foi o arqueólogo Yigael Yadin, filho de Sukenik. Em 1955, os sete estavam juntos de novo, em Jerusalém. E, em 1965, ganharam um prédio construído para abrigá-los: o Santuário do Livro, hoje parte do Museu de Israel.
Mas esses sete foram só o começo.
4:12Onze grutas, três séculos
A notícia correu, e começou uma corrida. De um lado, arqueólogos. Do outro, beduínos, que já tinham entendido quanto um fragmento podia valer. De 1949 a 1956, as escavações foram lideradas por Roland de Vaux, diretor da Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém, e pelo britânico Gerald Lankester Harding, diretor do Departamento de Antiguidades da Jordânia.
Em nove anos, apareceram rolos e fragmentos em mais dez grutas. Onze, ao todo. E a maior parte do tesouro não foi achada pelos arqueólogos, e sim pelos beduínos. O caso mais famoso é a gruta 4, descoberta por beduínos em setembro de 1952. Dela saíram milhares de fragmentos de cerca de 500 manuscritos diferentes. Os arqueólogos trabalhavam a uns cinco minutos de caminhada dali. Não tinham visto a gruta.
Quanto material saiu das grutas? A Autoridade de Antiguidades de Israel fala hoje em mais de 900 textos, em dezenas de milhares de fragmentos, com poucos rolos quase inteiros. As contagens variam com o critério e com a época: cerca de 850 num livro de 1994; de 800 a 900 na Enciclopédia Britânica; cerca de mil num estudo de 2025.
A maior parte está em hebraico. Cerca de 15 por cento, em aramaico. Alguns, em grego. Quase todos foram escritos em pergaminho, alguns em papiro. E um, só um, foi gravado em cobre. Cada peça ganhou uma sigla: o número da gruta, a letra Q, de Qumran, e uma abreviação do nome da obra. O Grande Rolo de Isaías, por exemplo, é o 1QIsa a: gruta 1, Qumran, Isaías.
A história das grutas não acabou em 1956. Em 2017, arqueólogos da Universidade Hebraica de Jerusalém anunciaram mais uma. Acharam jarros quebrados e vazios, tampas, um pedaço de pergaminho enrolado num jarro, ainda sendo preparado para a escrita, e duas cabeças de picareta de ferro dos anos 1950. Sinal de saque. Os escavadores propuseram chamá-la de gruta 12. E o diretor da escavação, Oren Gutfeld, tirou uma conclusão incômoda: já não dá para ter certeza de que os rolos vendidos pelos beduínos vieram mesmo das grutas a que foram atribuídos.
E quantos anos têm esses rolos? Quase nenhum manuscrito antigo desse tipo traz data escrita. Os estudiosos usam dois caminhos. O primeiro é a paleografia, o estudo da forma das letras, que muda com o tempo. É um método que depende muito do olho do especialista. O segundo é o carbono 14, um teste de laboratório numa amostra do próprio material. O resultado não é um ano: é uma faixa de datas.
Juntando os caminhos, a Autoridade de Antiguidades de Israel data os rolos de Qumran entre o século três antes de Cristo e o primeiro século depois de Cristo, antes da destruição do Templo de Jerusalém, no ano 70. E o sítio de Qumran, segundo o Museu de Israel, foi destruído pelo exército romano no ano 68.
As datas continuam em revisão. Em 2025, uma equipe da Universidade de Groningen, na Holanda, publicou 27 novas datas de carbono 14. Muitas saíram mais antigas do que a paleografia supunha. Com elas, a equipe treinou um programa que estima datas pela forma das letras, com erro médio em torno de 30 anos.
8:11O Grande Rolo de Isaías
Agora, o rolo mais famoso. O Grande Rolo de Isaías tem 7 metros e 34 centímetros. São 54 colunas, com os 66 capítulos do livro, na ordem de sempre. É o maior e o mais bem conservado dos rolos bíblicos, e o único quase completo. O Museu de Israel o data de cerca de 125 antes de Cristo. E estudos da Universidade de Groningen indicam que dois copistas trabalharam nele, cada um numa metade, na mesma época.
A pergunta óbvia: esse texto é igual ao das Bíblias de hoje? A resposta tem duas partes, e as duas são verdadeiras.
Primeira parte: sim, no essencial. O Museu de Israel diz que o texto do rolo concorda, em geral, com o texto massorético: a forma da Bíblia hebraica que gerações de sábios judeus, os massoretas, preservaram e transmitiram. Ela ficou registrada em códices medievais, como o Códice de Alepo, do século dez, e o Códice de Leningrado, de 1008 ou 1009, que é a base da edição usada hoje pela maioria das traduções. E a Autoridade de Antiguidades de Israel diz o mesmo de muitos manuscritos bíblicos de Qumran: uma semelhança notável, para cópias mais de mil anos mais antigas.
Segunda parte: não, não é idêntico. O museu conta mais de 2.600 variantes entre o rolo e o texto massorético. Vão de uma letra a algumas palavras e, às vezes, a versículos inteiros. Há grafias diferentes, erros de copista e correções feitas na própria página. E a grafia do rolo é tão cheia que revela como o hebraico era pronunciado na época.
Um exemplo de versículo inteiro. No capítulo 2, o rolo não traz a segunda metade do versículo 9 nem o versículo 10. Na Almeida Revista e Corrigida, o versículo 10 diz: «Vai, entra nas rochas, e esconde-te no pó, da presença espantosa do Senhor e da glória da sua majestade.» Essas palavras não estão no Grande Rolo.
Acréscimo ou salto do copista? O curador do Museu de Israel lê como acréscimo: versos antigos, mas posteriores à forma que o rolo preserva. Só que outras cópias de Isaías da gruta 4 já trazem esses versos. As duas formas circulavam.
E aqui está a chave deste vídeo. Segundo o museu, os rolos mostram que havia várias versões do texto bíblico circulando ao mesmo tempo. Uma delas, hoje chamada de protomassorética, tinha status especial e, ao que tudo indica, tornou-se o texto de referência do judaísmo no fim do período do Segundo Templo. Dessa linha vem o texto massorético, a partir do qual as traduções modernas ainda são feitas.
Isaías, aliás, era muito copiado e citado em Qumran. Além do Grande Rolo, apareceram umas vinte outras cópias do livro, e seis comentários a ele.
11:26O que havia nas grutas
O que mais havia nas grutas? Cerca de um quarto dos textos são livros da Bíblia hebraica: uns 230 manuscritos, segundo a Autoridade de Antiguidades de Israel. São as cópias mais antigas que se conhecem desses livros. E todos os livros da Bíblia hebraica aparecem, menos um: Ester. As fontes que consultamos não explicam por quê. Cerca de uma dúzia dessas cópias usa a antiga escrita paleo-hebraica, a do tempo do Primeiro Templo.
Na gruta 11 apareceu um grande rolo dos Salmos. Ele traz salmos conhecidos, outros que não estão na Bíblia hebraica e alguns que ninguém conhecia. Vamos voltar a ele daqui a pouco, por causa de uma linha que faltava.
Havia também livros que já circulavam fora da Bíblia hebraica, em outras línguas. O livro dos Jubileus era conhecido em etíope e em grego; em Qumran, apareceu em hebraico. E só na gruta 4 havia onze manuscritos de livros de Enoque, em aramaico, segundo a edição de Józef Milik, de 1976. Enoque e Jubileus não estão nas Bíblias de judeus, católicos e protestantes. Estão na Bíblia da Igreja Ortodoxa Etíope Tewahedo. E há um ponto importante aqui. Segundo a Autoridade de Antiguidades de Israel, alguns desses livros, como Jubileus, podem ter tido status de Escritura para certos grupos. As comunidades daquela época não tinham uma ideia única de uma coleção fechada de livros sagrados. A ideia de um cânon fechado só surgiu depois.
E havia os textos do próprio grupo. A Regra da Comunidade descreve a doutrina, a organização e as normas de um grupo que se chamava de Yahad, «a Comunidade». Os comentários chamados pesharim aplicam as profecias bíblicas à história desse grupo e ao fim dos tempos. O Rolo do Templo, com 66 colunas preservadas, detalha como deveria ser um Templo ideal em Jerusalém. E um calendário solar de 364 dias organiza festas e turnos de sacerdotes. Um desses textos, o Documento de Damasco, já era conhecido: duas cópias medievais tinham saído, em 1896, de um depósito de livros velhos de uma sinagoga do Cairo.
O objeto mais diferente veio da gruta 3: o Rolo de Cobre. É uma lista de tesouros e dos lugares onde eles estariam escondidos; a Britânica os descreve como tesouros do Templo. Hoje, ele está exposto no Museu da Jordânia, em Amã.
E um detalhe que atravessa os séculos. Nas grutas havia filactérias, pequenos pergaminhos com trechos bíblicos, guardados em cápsulas que, conforme o Deuteronômio, se prendem à mão e entre os olhos. E havia mezuzás, que se põem no batente da porta. Segundo a Autoridade de Antiguidades de Israel, os trechos das filactérias de Qumran são os mesmos exigidos pela lei judaica transmitida até hoje, alguns com trechos a mais. E as mezuzás trazem, muitas vezes, os mesmos textos das portas de casas judaicas atuais.
14:55Quem guardou os rolos
Quem juntou essa biblioteca? Nos textos do grupo, ele se chama de Yahad, «a Comunidade». O nome «essênios» vem de fora: de três autores antigos que descrevem um grupo judeu com esse nome.
O primeiro é o romano Plínio, o Velho, na sua História Natural, escrita depois da guerra do ano 70. Ele põe os essênios na margem oeste do Mar Morto: um povo «sem nenhuma mulher», «sem dinheiro», «na companhia das palmeiras». E acrescenta: «por milhares de séculos, coisa incrível de dizer, é um povo eterno, no qual ninguém nasce». Diz ainda que, abaixo deles, ficava a cidade de Engada, En-Gedi, «hoje outro monte de cinzas».
O segundo é o autor judeu Fílon. Ele fala em «mais de quatro mil» essênios, que viviam «em aldeias, evitando todas as cidades». O terceiro é o historiador judeu Flávio Josefo, na Guerra dos Judeus. Para ele, os essênios eram uma das três escolas de pensamento dos judeus, ao lado de fariseus e saduceus. Desprezavam a riqueza e punham os bens em comum. O candidato passava um ano em prova e mais dois em teste. E jurava «conservar os livros» do grupo. Josefo diz ainda que eles estudavam com grande empenho os escritos dos antigos.
Mas os três não batem em tudo. Plínio põe os essênios no deserto. Fílon diz que eles evitavam as cidades. Josefo diz que eles não tinham uma cidade só, e que muitos moravam em cada cidade. E fala de um ramo de essênios que se casava.
Por que ligar esse grupo a Qumran? O Museu de Israel resume a leitura da maioria dos estudiosos: o sítio teria sido a casa de uma seita judaica reclusa, provavelmente de essênios. Ela teria se afastado de Jerusalém por disputas sobre o Templo, o calendário e as leis de pureza, sob um líder que os rolos chamam de Mestre da Justiça. E os próprios membros teriam escondido os rolos nas grutas, diante do avanço romano.
Há outras leituras. Segundo a Britânica, alguns estudiosos ligam o grupo aos saduceus ou aos zelotes. Outros propõem que os rolos, ou parte deles, vieram de Jerusalém e foram escondidos por quem fugia dos romanos. A Britânica acha possível essa explicação para o esconderijo, mas observa que a variedade dos rolos não é tão grande quanto essa teoria sugere. E a Autoridade de Antiguidades de Israel diz hoje que a maioria dos estudiosos vê ali os escritos de comunidades aparentadas, que mudaram com o tempo, e não de uma seita só.
Então, quem guardou os rolos? A resposta honesta, hoje: um ou mais grupos judeus do fim do período do Segundo Templo, que muitos estudiosos ainda ligam aos essênios. O nome exato do grupo e a origem de cada rolo continuam em discussão.
18:10Quarenta anos de espera
Os rolos mais longos saíram depressa. Em 1950 e 1951, já estavam publicados o Grande Rolo de Isaías, o comentário a Habacuque e a Regra da Comunidade. Com os fragmentos da gruta 4, foi outra história.
Em 1953, formou-se uma equipe internacional para montar e publicar os fragmentos, no museu que hoje se chama Museu Rockefeller, em Jerusalém. As condições eram precárias. Lawrence Schiffman conta que se usava fita adesiva e borda de selo para prender fragmentos, que o sol entrava pelas janelas e que xícaras de café e cigarros faziam parte da cena. Mas houve também cuidado. Em 1954, John D. Rockefeller doou recursos para seis anos de trabalho. E o fotógrafo Najib Albina fotografou quase todos os textos, entre 1954 e 1960, também com infravermelho. Em muitos casos, essas fotos são o melhor registro que existe, porque alguns fragmentos se deterioraram depois.
E a equipe era pequena. Segundo a Autoridade de Antiguidades de Israel, durante quarenta anos o estudo dos fragmentos ficou nas mãos de menos de uma dúzia de especialistas, e esse tamanho impediu uma publicação rápida. Quem estava de fora não tinha acesso aos textos inéditos.
Em 1977, Geza Vermes, estudioso dos manuscritos em Oxford, fez um alerta que ficou famoso: se nada fosse feito logo, a maior descoberta de manuscritos hebraicos e aramaicos corria o risco de virar «o escândalo acadêmico por excelência do século vinte».
A virada veio em setembro de 1991. Pesquisadores do Hebrew Union College, em Cincinnati, anunciaram que tinham reconstruído um texto inédito com um programa de computador, a partir de uma concordância já publicada. No fim do mesmo mês, a Biblioteca Huntington, na Califórnia, abriu a pesquisadores o seu conjunto completo de fotografias dos rolos. Com o monopólio quebrado, a Autoridade de Antiguidades de Israel suspendeu as restrições.
A publicação foi então dividida entre cerca de cem estudiosos, sob a direção de Emanuel Tov, da Universidade Hebraica. Em 2001, a maior parte das edições oficiais estava publicada. E, desde 2011, cinco dos grandes rolos, entre eles o de Isaías, podem ser vistos na internet.
Nesse vazio de quarenta anos, nasceu uma teoria de conspiração. Em 1991, Michael Baigent e Richard Leigh lançaram um livro de sucesso, The Dead Sea Scrolls Deception. A tese: o Vaticano estaria por trás do atraso, com medo de que os rolos abalassem a doutrina cristã. Os dois chegaram a insinuar que a equipe datou os rolos antes de Cristo para desarmá-los.
Quem respondeu foi Hershel Shanks, editor da revista Biblical Archaeology Review, que passou anos brigando pela abertura dos rolos. Ele chamou a tese de «bobagem», tão falha que chegava a ser ridícula. E os fatos não ajudam a teoria. A demora teve outra causa: a equipe pequena. Os textos foram publicados. E os testes de carbono 14 de 2025 deixaram muitas datas mais antigas, não mais novas.
21:57Isaías 53 e Salmo 145
Agora, a pergunta do título: o que esses rolos mudaram na Bíblia que você lê? Vamos a quatro exemplos, conferidos palavra por palavra. Em cada um, a Almeida de 1904, feita antes de Qumran, mostra o texto massorético. E traduções mais novas mostram, no texto ou na nota, o que os rolos trouxeram. Isso começou cedo: em 1952, o prefácio de uma tradução em inglês, a Revised Standard Version, já citava os textos de Isaías e de Habacuque do Mar Morto.
Primeiro exemplo: Isaías 53, o capítulo do servo que sofre. Na Almeida de 1904, o versículo 11 começa assim: «O trabalho da sua alma ele verá, e se fartará.» Os três manuscritos hebraicos de Qumran que têm esse versículo trazem uma palavra a mais: luz. Ele verá a luz. A antiga tradução grega, a Septuaginta, também tem «luz». Para James VanderKam e Peter Flint, isso mostra que o texto hebraico usado pelo tradutor grego de fato continha a palavra.
E as Bíblias de hoje? A Nova Versão Internacional em português traz: «ele verá a luz e ficará satisfeito», com uma nota: conforme os manuscritos do mar Morto; o texto massorético não traz «a luz». Em inglês, a New International Version vai além: «a luz da vida». A New American Bible, a Bíblia do site dos bispos católicos dos Estados Unidos, também traz «luz». A English Standard Version fica com o texto massorético e põe «luz» na nota.
Segundo exemplo: o Salmo 145. Ele é um acróstico: cada versículo começa com uma letra do alfabeto hebraico, em ordem. Mas no texto massorético falta a linha da letra nun. Na Almeida de 1904, depois de «O teu reino é um reino eterno; o teu domínio dura em todas as gerações», o salmo passa direto a «O Senhor sustenta a todos os que caem».
O grande rolo dos Salmos da gruta 11 traz a linha que faltava, bem no lugar esperado. Na tradução do pesquisador Andrew Perrin: Deus é fiel nas suas palavras e bondoso em todos os seus feitos. A Septuaginta e pelo menos um manuscrito hebraico medieval já tinham essa linha. E o rolo tem outra diferença: repete, ao longo do salmo, um refrão que não está nas nossas Bíblias: «Bendito seja o Senhor, e bendito seja o seu nome para todo o sempre.» Hoje, a NVI em português traz: «O Senhor é fiel em todas as suas promessas e é bondoso em tudo o que faz», com uma nota que cita os manuscritos do mar Morto. A New American Bible, a NRSVUE e a English Standard Version também incluem a linha; a ESV, entre colchetes. E nem todos os estudiosos acham que a linha é original, lembra o próprio Perrin.
25:16Deuteronômio 32 e 1 Samuel 11
Terceiro exemplo: Deuteronômio 32:8, no último cântico de Moisés. Na Almeida de 1904: «Quando o Altíssimo distribuía as heranças às nações, quando dividia os filhos de Adão uns dos outros, os termos dos povos tem posto, conforme ao número dos filhos de Israel.»
Um manuscrito do Deuteronômio achado em Qumran e a Septuaginta apontam outra leitura: em vez de «filhos de Israel», «filhos de Deus». Aqui as traduções se dividem. A NVI em português mantém «filhos de Israel» e avisa na nota que os manuscritos do mar Morto dizem «filhos de Deus». A English Standard Version põe «filhos de Deus» no texto. A New American Bible traduz por «seres divinos» e explica na nota que o original diz «filhos de Deus». E a NRSVUE traduz por «deuses».
Quarto exemplo, o maior de todos: 1 Samuel 11. Na Almeida de 1904, o capítulo 10 termina com homens que desprezam o novo rei, Saul. E o capítulo 11 começa de repente: «Então subiu Nahas, amonita, e sitiou a Jabez-Gilead.» Naás impõe à cidade uma condição humilhante para a rendição. Por que ali, e por que naquele momento?
Um manuscrito de Samuel da gruta 4, chamado 4QSam a, responde. É a cópia mais antiga que se conhece desse livro, e o único manuscrito conhecido com o trecho. Entre os dois capítulos, ele traz um parágrafo inteiro: Naás, rei dos amonitas, vinha oprimindo com violência as tribos de Gade e de Rúben, do outro lado do Jordão. Sete mil homens escaparam e se refugiaram em Jabes-Gileade. Como diz a nota da New American Bible, a informação explica por que Naás cercou a cidade. Andrew Perrin chama essa de a maior diferença encontrada nos textos bíblicos hebraicos de Qumran.
E há uma testemunha antiga fora da Bíblia. O historiador Flávio Josefo, nas Antiguidades Judaicas, escritas por volta do ano 94, conta que Naás já vinha maltratando os judeus do outro lado do Jordão antes de cercar Jabes. E abre o episódio com «depois de um mês», expressão que também está no manuscrito de Qumran e na Septuaginta, e que falta no texto massorético.
E as Bíblias? A NRSVUE põe o parágrafo no texto. A NIV o traz em nota. A New American Bible o resume em nota e diz que não há consenso entre os estudiosos: pode ser a leitura original ou uma expansão posterior. A NVI em português e a English Standard Version seguem o texto massorético. Três das cinco traduções que consultamos avisam o leitor em nota. E, segundo Perrin, em inglês só a NRSV e a NLT põem o parágrafo no texto.
Quatro exemplos, e um padrão. Os rolos não trouxeram outra Bíblia. Trouxeram testemunhas antigas do mesmo texto, que as traduções pesam, uma a uma, e registram.
28:50Tradições e o que os rolos não provam
Como as tradições leem esses achados? Cada uma parte do seu próprio documento sobre o texto da Bíblia. Vamos em ordem alfabética.
Na tradição católica, a constituição Dei Verbum, do Concílio Vaticano Segundo, de 1965, lembra que a Igreja fez sua, desde o começo, a antiga tradução grega do Antigo Testamento chamada dos Setenta. E pede traduções «aptas e fiéis» nas várias línguas, feitas «sobretudo a partir dos textos originais dos livros sagrados».
Na tradição judaica, o texto de referência é o massorético, aceito até hoje. Maimônides, na Mishné Torá, conta que copiou um rolo da Torá apoiado num códice corrigido por Ben Asher, «em que todos se apoiavam». E as filactérias de Qumran já trazem os trechos que a lei judaica ainda exige.
Na tradição protestante histórica, a Confissão de Fé de Westminster, de 1647, ensina que o Antigo Testamento em hebraico foi inspirado por Deus e «conservado puro em todos os séculos» pelo seu cuidado e providência. E manda traduzir a Escritura para a língua de cada povo, para que todos possam lê-la.
Estas são as leituras.
E o que os manuscritos não provam? Três frases circulam muito. Primeira: «os manuscritos mostram que a Bíblia foi adulterada». Não mostram. A Autoridade de Antiguidades de Israel diz que muitos manuscritos bíblicos de Qumran se parecem muito com o texto massorético. E James VanderKam resume as diferenças: numerosas, mas muitas vezes muito pequenas, que em geral não afetam o sentido, como uma grafia ou uma conjunção a mais.
Segunda: «os manuscritos provam que a Bíblia nunca mudou uma letra». Também não. Só o Grande Rolo de Isaías tem mais de 2.600 variantes. E a Autoridade de Antiguidades de Israel diz que acréscimos e omissões em alguns textos mostram que os copistas se sentiam livres para mexer no que copiavam.
Terceira: «os manuscritos foram escondidos porque desmentem o cristianismo». Já vimos o que atrasou a publicação, e os textos estão publicados. Não há livro do Novo Testamento entre eles. E as semelhanças entre o grupo de Qumran e os primeiros cristãos, diz a Britânica, podem ser explicadas pelo fundo judaico comum aos dois.
O que ainda não se sabe? Quem exatamente guardou os rolos. Se o parágrafo de Naás e a linha do Salmo 145 são originais. E se há outras grutas: a de 2017 mostrou que pode haver.
E o que os rolos mostram, então? Aqui vai a nossa tese. Os manuscritos do Mar Morto não trouxeram uma Bíblia diferente. Mostraram, com cerca de mil anos de antecedência, que o texto hebraico foi copiado com cuidado, e que circulava em mais de uma forma. E as Bíblias de hoje registram essas formas às claras: nas notas e, às vezes, no próprio texto.
32:13Convite
Em resumo: de uma pedra jogada numa gruta, em 1947, saíram as cópias mais antigas que se conhecem dos livros da Bíblia hebraica. E elas deixaram uma lição simples: a Bíblia chegou até nós por muitas mãos, e as diferenças entre as cópias estão à vista de quem quiser ver.
Se quiser conferir com os próprios olhos, abra a sua Bíblia em Isaías 53:11 e no Salmo 145:13. Leia o texto e a nota de rodapé. E tire as suas conclusões.
Até o próximo episódio.
De onde vem cada informação18 fontes
O minuto mostra em que ponto do vídeo cada fonte aparece. Os links levam à fonte.
- i00:10Autoridade de Antiguidades de Israel, Leon Levy Dead Sea Scrolls Digital Library: Discovery and Publication; Introduction; Scrolls Content.deadseascrolls.org.il
- ii00:23Museu de Israel, The Digital Dead Sea Scrolls: The Great Isaiah Scroll (A. D. Roitman); The Qumran Community.dss.collections.imj.org.il
- iii01:16L. H. Schiffman, Reclaiming the Dead Sea Scrolls, 1994.cojs.org
- iv03:32P. R. Davies, Encyclopaedia Britannica, Dead Sea Scrolls.britannica.com
- v04:55M. Popović et al., PLOS ONE 20(6), 2025. doi.org/10.1371/journal.pone.0323185journals.plos.org
- vi05:47Universidade Hebraica de Jerusalém, 08/02/2017 (gruta 12).web.archive.org
- vii08:19A. B. Perrin, How the Dead Sea Scrolls Changed Our Bibles, 2025 (cita o prefácio da RSV, 1952; VanderKam e Flint, 2002; VanderKam, 2012).logos.com
- viii11:31J. T. Milik, The Books of Enoch, 1976.archive.org
- ix11:31Igreja Ortodoxa Etíope Tewahedo, The Bible.ethiopianorthodox.org
- x14:08Plínio, o Velho, História Natural V.73 (latim; trad. da redação).penelope.uchicago.edu
- xi14:37Fílon, Todo homem bom é livre XII.75-76, trad. C. D. Yonge.earlyjewishwritings.com
- xii14:37Flávio Josefo, Guerra dos Judeus II.8; Antiguidades VI.5.1 e XVIII.1.5, trad. W. Whiston.gutenberg.org
- xiii18:17H. Shanks, Geza Vermes (1924-2013), Bible History Daily, 2013.biblicalarchaeology.org
- xiv19:19H. Shanks, The Passing of a Conspiracy Theorist, Bible History Daily, 2013.biblicalarchaeology.org
- xv21:19NVI, NABRE, NIV, ESV e NRSVUE: texto e notas em biblegateway.com; NABRE também em bible.usccb.orgbiblegateway.com
- xvi26:33Concílio Vaticano II, Dei Verbum, n. 22, 1965.vatican.va
- xvii26:53Maimônides, Mishné Torá, Leis de Tefilin, Mezuzá e Rolo da Torá 8:4 (hebraico; trad. da redação).sefaria.org
- xviii27:14Confissão de Fé de Westminster, I.8, 1647 (trad. da redação).opc.org
Texto bíblico: Almeida, Edição Revista e Corrigida, American Bible Society, Nova York, 1904. Domínio público. A grafia é a de hoje. Trechos curtos da Nova Versão Internacional: Bíblia Sagrada, Nova Versão Internacional, NVI. Copyright © 1993, 2000 by Biblica, Inc. Used by permission. All rights reserved worldwide. Citadas só como fato: NABRE © 2010, 1991, 1986, 1970 Confraternity of Christian Doctrine; NIV © 1973, 1978, 1984, 2011 Biblica, Inc.; ESV © 2001 Crossway; NRSVUE © 2021 National Council of Churches of Christ in the USA.
Achou um erro? Conte para a gente.
De onde vêm as imagens14 imagens









- Um anúncio de 1954 e uma gruta perto do Mar MortoEm breve
- Isaías 53:11 e a palavra que os rolos trouxeramEm breve
- O parágrafo de 1 Samuel que só Qumran guardouEm breve